Vidas secas
A aridez econômica do sertão nem sempre está ligada à falta de torneiras, canos e ligações para receber água. Às vezes, as conexões para ter o abastecimento dentro de casa e das empresas estão lá. E a água não vem. A Adutora do Agreste, maior complemento da Transposição do São Francisco, beneficiará 2 milhões de pessoas e garantirá o fornecimento diário às casas, lojinhas, bares, hotéis, restaurantes e salões de beleza.
A Adutora do Agreste, maior complemento da Transposição do São Francisco, beneficiará 2 milhões de pessoas e garantirá o fornecimento diário às casas, lojinhas, bares, hotéis, restaurantes e salões de beleza.
"Claro que a adutora trará desenvolvimento econômico também. A finalidade dela, basicamente, é sobrevivência. São municípios que nunca tiveram um mínimo de garantia de abastecimento de água", explica o secretário-executivo de Recursos Hídricos de Pernambuco, José Almir Cirilo.

O próprio Cirilo tem forte, na memória, as lembranças da escassez. "Sou de Caruaru, onde esse problema (de abastecimento irregular) já foi resolvido. Lembro que, na minha infância, tinha uma fábrica da Coca-Cola na cidade. Ela acabou por falta de água. Caruaru chegou a ponto de ter um dia de abastecimento e ficar 30 dias sem água. Então, tem a questão do desenvolvimento e o drama das pessoas", relata Cirilo.
Por ser uma obra gigantesca, com 1.100 quilômetros, a Adutora do Agreste será construída em três etapas. Quando começar a funcionar, serão 5 mil litros por segundo de vazão. Até 2020, esse volume subirá para 7.500 litros por segundo.
Os primeiros sertanejos serão beneficiados em 2012. Mas a adutora se ramificará bastante, o que significa um grande horizonte de obras.
"As pontas de linha, as ramificações, vão demorar cinco anos para acontecer", conta Cirilo.
É proibido terra fértil
O casal de aposentados Maria Alves de Jesus Silva, 62 anos, e Francisco Hortêncio da Silva, 74 anos, vive em Trindade, no Sertão do Araripe. Recebe água em casa. Mas o abastecimento da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) hoje não tem vazão suficiente para suportar seu uso na agricultura. Os dois não podem manter um canteiro em uma das áreas mais férteis de Pernambuco.
Já existem vários estudos indicando a riqueza daquelas terras sertanejas. Tanto que há 15 anos se discute o Canal do Sertão, uma outra megaobra que percorreria 17 municípios e irrigaria 200 mil hectares, criando uma nova fronteira agrícola na área, com a plantação de cana de açúcar. Em 2007, a Petrobras e a japonesa Mitsui assinaram um memorando de entendimentos para produzir etanol na área. No entanto nada disso andou.
"Nessa terra aqui, dá tudo o que se planta. Uma vez, nas chuvas, plantamos cana que chegou a quatro metros de altura. Parece mentira, mas eu queria que o senhor visse", garante Maria de Jesus.
O problema da região é que chove muito pouco. "Só tenho três pés de coco em que eu coloco água um por um. Uma vez, aproveitei as chuvas e plantei sessenta bananeiras. Depois que a chuva parou, perdi tudinho", lamenta Maria. Ela queima o que sobra das plantas mortas. E recomeça o ciclo de plantação.
Maria diz que já foi até ameaçada com prisão por um funcionário da Compesa. "A gente não pode usar a água de casa para plantar. Mas aí teve um vazamento em um cano. A água ficou sobrando por seis meses. Aproveitei e fiz um canteirinho perto, botei coentro e alface. Quando o rapaz da Compesa finalmente veio, disse que a gente tinha quebrado o cano e disse até que ia chamar a polícia", relata.
"Meu marido teve um derrame e não pode ajudar mais. Anda com dificuldade. Eu também já estou com idade, né? Mas o que a gente plantava antigamente era feijão. Tinha mandioca, que a gente fazia farinha para guardar. Torradinha, ela dura até um ano. Guardava tudo em vasos. E vendia aos pouquinhos", lembra dona Maria.
Seu Hortêncio e dona Maria se conheceram em um baile, como se chamavam os shows antigamente. Isso foi há 40 anos. Levaram oito anos para conseguir casar. O problema era o dinheiro curto, que não sustentaria uma família. De uma infelicidade na família, o espólio do pai de Hortêncio, vieram os dez hectares de terra onde o casal criou os seis filhos. Agora, são 11 netos. Três filhos do casal ainda moram na propriedade, em casas separadas.
despedida
Depois da longa conversa, a reportagem se despediu da família, que preparou uma surpresa enquanto a entrevista prosseguia. Ofereceu à equipe três pinhas, ainda verdes, da árvore que teima em resistir ao lado da casa deles.
Apesar do constrangimento em aceitar de graça algo de quem tem tão pouco para manter a si mesmo, no sertão é ofensa grave rejeitar presentes. Pensando bem, inclusive, mais valiosa do que as frutas em si foi a generosidade em dividir conosco a pequena prova daquela fertilidade confinada.
Araripina e a fábrica que não alimenta
A Maxx Amidos do Brasil está em construção desde 2007, a quase 700 quilômetros do Recife, no Sertão do Araripe, bem perto de Araripina. Deveria ter ficado pronta em dois anos. A obra atrasou e a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), que construiria uma ligação só para atender o novo cliente, esperou para ver. Mesmo assim, bem antes de pronta, a fábrica recebeu água na porta. O problema são os agricultores, futuros fornecedores da indústria: eles ainda não plantam mandioca, a matéria-prima da Maxx, em quantidade suficiente.

O consultor Aparecido Pianuci tem 57 anos. Ajudou a desenhar a fábrica desde os primeiros traços no papel. Veio do Paraná para o período de instalação da indústria. Com os atrasos, já ultrapassou quatro anos em Araripina e sabe que ficará mais um tempo na cidade.
"O projeto original previa o processamento de 600 toneladas por dia de féculas de mandioca. Mas, por falta de matéria-prima, até que a produção local consiga atender esse volume, a solução foi implantar um primeiro módulo para 200 toneladas por dia", explica o consultor.
O amido de mandioca tem amplo uso na indústria alimentícia. Pode ser utilizado em massas, salsichas e embutidos, entre muitos outros produtos.
Pianuci veio para cumprir seu papel de consultor. Com os atrasos, terminou colocando a mão na massa – não a que deriva da fécula da mandioca, mas no trabalho pesado, mesmo.
"Eu era construtor e não consigo ficar parado. Agora mesmo, quando vocês chegaram, eu estava trabalhando nas ligações de água e esgoto da fábrica", revela.
Os dois filhos de Pianuci estão no Paraná. Só a esposa veio com ele. O consultor se pergunta como abordar a mulher sobre o novo adiamento da volta para casa, esperada para este início de 2011.
"Até já nos comprometemos a entregar o apartamento alugado. Mas não vai ser desta vez. Vamos ficar por aqui pelo menos mais um ano", lamenta.
Em busca de areia e rochas
Desde os 18 anos, Edson Dias, 56, trabalha na construção civil e pesada. Muitas vezes, já atuou em outros estados e, com o tempo, se acostumou às grandes obras. Há pouco tempo, trabalhou no canteiro de construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Mas nunca abandonou sua cidade natal, Água Branca, município sertanejo de Alagoas. Hoje cruza a divisa de Pernambuco todos os dias para cumprir a rotina de serviço. Ocupa um dos quase mil empregados no lote 9 da Transposição do Rio São Francisco, entre Floresta e Petrolândia.

O trecho em que Dias trabalha, operando um trator, está a menos de 100 quilômetros de Água Branca. O lote, que tem 54 km de extensão, está a cargo do consórcio Camter/Egesa. Seguindo o traçado da Transposição, é o primeiro após os 5,6 km do canal de aproximação que o Exército está construindo para a captação de água no Reservatório de Itaparica, ponto zero do Eixo Leste.
Mesmo com uma disposição de andarilho e da rotina em busca de obras, quando está longe de casa Edson sempre espera a hora de voltar para a esposa, com quem se casou em 1971. E não pensa em abandonar Água Branca, onde criou seus quatro filhos. Está gostando de trabalhar perto de casa.
"Eu trabalhava na roça. Comecei na construção, de um canto para outro, e, desde 2000, eu saio no mundo para as obras", relata.
Ele sabe que o emprego vizinho do lar não é eterno. Faz parte da profissão. O pico de construção do lote 9 já passou. Eram 1.300 pessoas. Com o avanço das obras, começou a chamada desmobilização, com a demissão gradativa de pessoal porque as obras estão passando para uma etapa diferente.
"Estou há 90 dias aqui. Vou ficar ainda um tempo. Mas, quando terminarem as obras, só Deus sabe onde vai ser meu próximo trabalho", resume o operário.
Expediente
Giovanni Sandes
Produção, textos e vídeos
Priscila Buhr
Fotografia
Erika Simona
Sílvia Morais
Design, XHTML e CSS
Benira Maia
Edição Geral
Especial completo do JC Online “Nas águas do desenvolvimento” pode ser acessado por esse link – http://goo.gl/JSJPU